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A IA Generativa no dia a dia dos alunos do SMD: aprendizagem e impactos no mercado de trabalho

Data da publicação: 21 de maio de 2026 Categoria: Notícias

Por Julia Maria Freitas Bezerra

Em 2022, a empresa OpenAI lançou o ChatGPT, um sistema em linguagem natural de Inteligência Artificial Generativa. Abastecido por um grande volume de informações encontradas na internet e em outras bases de dados, o chatbot é capaz de interagir em linguagem natural, de gerar respostas contextualizadas e de escrever textos, artigos e orientações. Além de fornecer explicações sofisticadas, a IA ainda é capaz de gerar e aprimorar códigos de programação, solucionar operações matemáticas e proporcionar respostas e sugestões aos usuários. Em dois meses, o ChatGPT alcançou mais de 100 milhões de consumidores e, desse modo, não demorou muito para que essa tecnologia fosse amplamente utilizada no contexto educacional.

Após o lançamento do ChatGPT, o uso de IAs por estudantes, para a realização de trabalhos acadêmicos, passou a ser uma ação comum.

 

No contexto do curso de Sistemas e Mídias Digitais, discentes relatam que, após o lançamento do ChatGPT, passaram a recorrer a ferramentas de IA Generativa de forma gradual. Os entrevistados afirmam que utilizaram as informações fornecidas por sistemas automatizados para obter um melhor entendimento dos conteúdos vistos em sala de aula, bem como para gerar ideias e também para suprir demandas dos seus empregos. Entretanto, eles criticam o uso indiscriminado da Inteligência Artificial, destacando o fato de que muitos alunos estão fazendo os seus trabalhos exclusivamente por meio da tecnologia. Outro ponto comentado foi a precarização do mercado de trabalho para artistas e designers. Nessa perspectiva, com a facilidade de criar ferramentas de comunicação visual por meio das IAs, as pessoas, de forma geral, preferem a comodidade de produzir peças digitais em poucos minutos, mesmo que o resultado fornecido pela tecnologia possa ser considerado inferior ao que um ser humano entregaria.

O egresso Francisco Thales Rodrigues Andrade ressalta que “na época que eu estava na metade do curso, foi quando teve a primeira febre do uso da IA generativa com o ChatGPT e, como era algo meio novo, eu não cheguei a utilizar muito na época. Alguns professores já comentavam, mas nada demais.” Ele relata que só passou a utilizar a tecnologia após ser orientado no seu estágio a fazer uso de chatbots para a criação de copy (textos persuasivos focados em converter seguidores em clientes, utilizando gatilhos mentais e storytelling) para posts nas redes sociais e para a criação de relatório. Segundo o egresso, era dito a ele que, com a IA, o processo se tornava mais rápido, porém, ainda era necessário uma revisão final.

Thales ressalta que passou a utilizar a Inteligência Artificial para “aprender melhor programação” e que, como atividade da disciplina Projeto Integrado II, a equipe dele “utilizou uma IA para criar os protótipos de telas para o sistema”. Ele afirma que ainda utiliza a ferramenta para programação, geração de imagens e para a criação de documentos, mas que faz isso com cautela: “tento sempre revisar e perguntar sobre o que ela fez”.

A egressa Samiris Albuquerque, que alcançou o lançamento do ChatGPT no final do quarto semestre do curso, relata o crescimento exponencial do chatbot: “ninguém estava levando tão a sério assim. O pessoal pedia pro ChatGPT somar 1 + 1, para ele dar um valor errado e rir disso em seguida.” Entretanto, segundo Samiris, pouco tempo depois, a IA passou a ser utilizada por alunos para fazer atividades do curso. Nesse sentido, pesquisas eram feitas exclusivamente com o uso da Inteligência Artificial, de forma que os estudantes não tinham um papel ativo nas respostas das atividades, e ainda utilizavam referências inválidas, inventadas pela tecnologia. 

Ainda segundo Samiris, em 2024, iniciaram conversas sobre a demissão de funcionários, substituídos para que as Inteligências Artificiais fossem colocadas no lugar da força humana. Somada a isso, veio a dificuldade de encontrar empregos de nível júnior. Em meio a altas demandas de produtividade, os impactos social, ambiental e cognitivo são deixados de lado pelos estudantes. 

“Uma IA Generativa não conversa com você, não tem sentimentos, e não é pra trabalhar pra você, o que certamente não é estratégia de marketing. Não visualizo a IA como uma boa ferramenta de trabalho quando ela deixa de ser uma ferramenta e é quem faz o trabalho, e principalmente quando quem faz as coisas nem sabe de onde os dados utilizados estão vindo. Também não concordo com o uso obrigatório de IA para realizar tarefas; se é possível realizar a tarefa de outra forma, para mim, o trabalhador deveria ter a liberdade de realizá-la onde e como ele quiser. Não é como ser obrigado a usar o Canva, o Excel, o Figma, etc. O resultado seria o mesmo, então, para mim, você que detém a força de trabalho deveria ter o direito de escolher seu método”.

Samiris, apesar de compreender que a IA dominou a internet, afirma que “prefiro apenas ler meus livros físicos ou PDFs sozinha” e que “alguns roteiros de vídeos que uso para aprender também foram feitos por IA e outros possuem narração de IA também, mas prefiro que pelo menos o interlocutor seja um humano”.

ARTE EM TEMPOS DE IA

Apesar da automatização de tarefas que a IA oferece, somada a isso vem uma questão polêmica: a “arte” feita por IA. Para Samiris, o resultado gerado pela tecnologia digital “é apenas um conjunto de dados obtidos sem consentimento dos próprios artistas” e que design e trends, como a do Studio Ghibli (em que o usuário poderia pedir para a IA transformar uma foto de seu interesse com base no estilo de animação do estúdio de filmes japonês), tentam colocar a IA em um papel importante de participante ativo na cultura popular. 

Outros estudantes pensam de forma parecida: Julien Vitoriano, do décimo semestre do SMD noturno, entende que “quem usa IA, é uma pessoa que não tem dinheiro para contratar artistas bons. [Entretanto, a arte produzida por IA] É um trabalho que não foi feito com amor e dedicação”. Ele também vê o lado do empregador: “Por que eu vou gastar dinheiro pagando gente, se eu posso pedir para o ChatGPT gerar uma logo para mim?”. Apesar da popularização de peças feitas por chatbots, o estudante também ressalta que trabalhos feitos com IA têm um estigma negativo, pois possuem erros de continuidade e de português. “Eu tenho estado bem pessimista [sobre o mercado de trabalho]”. Julien ressalta que as massas já estão com a mentalidade de fazer peças visuais digitais através dos chatbots, para não ter que pagar o trabalho manual e criativo de um ser humano. 

“A IA [está] ameaçando o trabalho das pessoas, principalmente nas esferas criativas… Muita gente está publicando livros feitos por IA. E, muitas vezes, não todas, dá para saber quando um texto é feito por IA, porque tem uma estrutura simples de ser detectada: as orações são ditas em três sentenças – e cada sentença termina com um ponto final, no lugar de uma vírgula”. 

Além disso, o estudante Iuri Castro, do 7° semestre, afirma que “sempre tive ressalvas quanto ao uso ético da IA, já que seu trabalho substitui esforço de designers e artistas, entregando um produto altamente inferior”.

Julien afirma que passou a utilizar a IA Generativa para auxiliá-lo nas tarefas de Programação I e II, mas, depois disso, não via mais necessidade. Ele só voltou a tentar fazer uso da tecnologia alguns semestres depois, ao precisar escrever um artigo para a matéria de Semiótica. O estudante relata que a maior parte da sala usou IA para a atividade. Nesse viés, sob o incentivo dos colegas, Julien utilizou o chatbot para auxiliá-lo na composição do texto, mas a experiência não foi boa, pois a tecnologia colocava informações sem nexo na escrita do artigo.

Sobre a IA Generativa de imagens, ele relata que a utilizou uma única vez para a cadeira de Concepção de Cenários e Personagens, após detalhar a personagem desejada para um sistema automatizado, a tecnologia retornou apenas resultados “horríveis”. Atualmente, ele usa o DeepSeek – uma IA chinesa e de código aberto que chegou no mercado para concorrer com o ChatGPT. Ele sabe que todas as IAs são poluentes, gastando recursos hídricos e ambientais para a geração de respostas. Porém, o DeepSeek utiliza menos água e gera respostas melhores que as do ChatGPT. Desse modo, a tecnologia é utilizada pelo estudante como uma ferramenta para fornecer ideias, sem utilizá-la de forma única para a realização da tarefa desejada.

 

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